Novo texto sobre "Ira Implacável"

Em terra de cego ninguém enxerga o óbvio

Os editores brasileiros são perigosos. Ou vesgos. Só isso pode explicar o fato de um escritor como Luis Eduardo Matta estar sem editora. Só agora li seu Ira Implacável, lançado pela editora Razão Cultural, e fiquei pasmo: trata-se de um escritor completo que poderia estar entre os maiores vendedores de livros do mundo. Mas os editores brasileiros preferem vender o que vem de fora…
Ira Implacável é um romance de espionagem. É um segmento que sempre vende bem. Se antigamente a Guerra Fria era uma fonte inesgotável de histórias de espiões, agora temos os terroristas com suas organizações secretas e milionárias e seus motivos sempre diabólicos de matar inocentes em prol de causas perdidas. E é por esta vertente que Matta se esgueira.
A história gira em torno de um superterrorista cujo rosto jamais foi visto e cujas ações sempre foram bem sucedidas. Depois de um atentado no Brasil, o espião emite um comunicado dizendo que arrasará duas cidades do Oriente Médio: Tel-Aviv e Beirute. Cabe a uma comissão internacional da ONU evitar a catástrofe. E entre os militares de alta patente escolhidos para integrar a equipe está um brasileiro: Euzébio Vianna.
O livro é envolvente e bem escrito. Um editor com menos preguiça talvez pedisse que o autor colocasse um pouco mais de humor em algumas cenas muito austeras. Nada que comprometa. As descrições dos cenários são críveis e toda a ameaça deixa o leitor com o coração na mão. Que mais se poderia desejar de um livro de espionagem?
Depois da quebra da Razão Cultural, Luis Eduardo Matta tenta publicar seu mais recente romance, 120 Horas. Enquanto isso não acontece, o ficcionista milita em favor de uma causa perdida: uma literatura popular brasileira. Isto é, uma literatura que, não se pretendendo aos cânones, forme leitores com o hábito de se emocionar, se assustar e se divertir com livros acessíveis, mas não vulgares.
É uma luta difícil, se pensarmos que os escritores da nova geração só sabem fazer experimentalismos de linguagem, quando não uma literatura que contempla apenas seus umbigos. Não é à toa que, a cada dia que passa, o leitor vai se afastando mais da literatura brasileira, feita exclusivamente para ganhar prêmios e outras loas que não o aplauso dos leitores.
Eu, por mim, já joguei a toalha. Em terra onde as maiores estrelas são os vadios entediados ou as personalidades da TV que se aventuram nas letras não há lugar para o talento e a capacidade de bem comunicar de Luis Eduardo Matta. Estamos condenados a importar Stephen Kings e Le Carrés. Até porque, como já se disse no início, temos os mais preguiçosos editores do mundo.
© by Paulo Polzonoff Jr.
www.polzonoff.com.br/?p=67
Posted by Picasa

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