Desarmamento: você compraria um carro vermelho?

Desarmamento: você compraria um carro vermelho?
por Peter Hof em 12 de julho de 2005

Para dar uma folga aos leitores no assunto Desarmamento, hoje vou contar uma história, uma fábula, não tão fabulosa quanto às do Millôr, mas de qualquer forma uma fábula.

Num país chamado Ramapindo, o Congresso e algumas ONGs chegaram à conclusão que o grande responsável pelas 36 mil mortes anuais no trânsito e 350 mil pessoas que se feriram em acidentes de carro, com muitas incapacitadas pelo resto da vida, eram causadas por carros da cor vermelha. As ONGs, entre as quais uma que coincidentemente recebia gordas contribuição de um fabricante de tintas, que também coincidentemente não fabricava tinta da cor vermelha, imediatamente começaram a pressionar a opinião pública e o Congresso por uma lei que banisse os carros de cor vermelha.

Alguns levantaram sua voz dizendo que não havia nenhuma estatística confiável que provasse serem os carros da cor vermelha os verdadeiros responsáveis pelas 36 mil mortes por ano. Diziam mais: que a imprensa exagerava, só mostrando, ou dando especial realce, a acidentes envolvendo carros da cor vermelha e assim distorcendo a verdade. Os responsáveis pela chamada “Campanha do Desvermelhamento” tiveram o decisivo apoio da Rede de TV Sphera. Pessoas bem informadas diziam que o apoio da rede de TV à campanha era devido ao fato da Sphera dever bilhões de Plebeus (a moeda de Ramapindo) à Mesa de Renda, um hospital de empresas do governo. Assim, em troca de apoio, almejava obter tratamento simpático quanto à dívida. Este fato, porém, nunca foi comprovado.

Após alguns esforços e muita pressão, a Corte dos Grandes de Ramapindo aprovou uma lei, prontamente sancionada pelo príncipe regente Ignatius Mollusca Cephalopoda, saudada pela imprensa de Ramapindo como a solução para o grave problema. A lei contemplava as seguintes medidas:

A – No perímetro urbano, os proprietários de carros vermelhos não poderiam mais estacionar seus veículos em um raio de um quilômetro de: escolas, cinemas, teatros, restaurantes, lanchonetes, feiras livres, supermercados, hospitais, casas lotéricas, bancos, farmácias e repartições públicas.
B – Nas estradas, carros vermelhos não poderiam ultrapassar 40 quilômetros por hora;
C – Menores de 25 anos não poderiam mais dirigir nem ser passageiros de carros vermelhos;
D – Carros vermelhos só poderiam ser abastecidos em postos da PetroRama (companhia estatal de petróleo), entre meia-noite e seis da manhã;
E – Carros vermelhos só poderiam ser abastecidos com 50 litros de gasolina por mês. A quantia não utilizada deveria ser devolvida à Agência Especial de Controle de Carros Vermelhos. Para o bom exercício de suas funções, esta nova agência ficava autorizada a contratar 12 mil funcionários, sem concurso público. Para evitar nepotismo ficava proibida a contratação de parentes com mais de 75 anos de idade na data da promulgação da lei;
F – A cada três anos os carros vermelhos deveriam ser re-certificados perante a Agência Especial de Controle de Carros Vermelhos (AECCV). O custo para o proprietário seria de 30% do valor do carro (a ser estipulado pela referida agência), além de dez certidões dos mais variados órgãos governamentais, bem como um atestado fornecido pelo bispo local;
G – Era vedado queixar-se ao bispo local ou a qualquer outro bispo sobre o assunto;
H – Em cidades onde não houvesse escritório da AECCV ficava proibida a posse de carros vermelhos;
I – As pessoas que resolvessem desfazer-se dos carros vermelhos poderiam entregá-los ao governo. O proprietário receberia o pagamento equivalente a um décimo do valor do carro (também estipulado pelo governo e necessariamente menor do que o mencionado no item F);
J – Qualquer cidadão que fosse apanhado possuindo um carro vermelho sem cumprir com os dispositivos do Estatuto do Desvermelhamento seria preso inafiançável por quatro anos. Isto se fosse um carro de até 380 cilindradas e fabricado localmente. Os donos de carros importados e acima da cilindrada mencionada seriam punidos com oito anos de cadeia.
K – Esse Estatuto não se aplicava aos membros da Corte dos Grandes de Ramapindo, Juízes e Ministros, que poderiam possuir e dirigir livremente carros vermelhos.

Como o governo ramapindês era democrático, ou pelo menos pensava que era, a Corte dos Grandes de Ramapindo decidiu que a população deveria participar de tão importante decisão e marcou um referendo onde o povo deveria responder com “Sim”ou “Não” à seguinte pergunta:

VOCE ACHA QUE A COMERCIALIZAÇAO DE CARROS VERMELHOS DEVE SER PROIBIDA?

Moral da fábula: Qual é o sentido de se perguntar à população sobre a proibição do comércio de carros vermelhos depois de se criar toda a sorte de dificuldades em relação à posse e uso de veículos daquela cor?

Nota: O autor desde já informa que esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, situações, organizações ou países é mera coincidência.

Clique aqui e leia todos os artigos do autor de Peter Hof

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