Homers adoram Bonner?

Achei interessante esse artigo. Olhando pelo lado político de tudo o que assistimos nesse ano e mais a anganação da mídia, fiquei me perguntando se Bonner não teria razão. Será que o povo brasileiro não é mesmo parecido com o “Homers”?

DE BONNER PARA HOMER
O editor-chefe da TV Globo considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador padrão do Jornal Nacional

*Por Laurindo Lalo Leal Filho* – dez / 2005

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão.

Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.

A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, suco! s e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático “bom-dia”, Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. “Essa o Homer não vai entender”, diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.

Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos “atender ao Homer”, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas “praças” (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela “praça” de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da “oferta” jornalística informa que a empresa venezuelana, “que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível” para serem “vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano”. Uma notícia de impacto social e político.

O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela “praça” de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. “Esse juiz é um louco”, chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência. Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês, matéria oferecida por São Paulo, o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS, ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública. Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global.

Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa par! a falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo.

Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac – o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá – os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.

* Laurindo Lalo Leal Filho é Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP

Nota por Haroldo P. Barboza.

Complemento: esta é mais uma denúncia que exibe a forma como a mídia direciona as notícias. Vem ocorrendo há diversos anos e faz parte do processo de anestesiar e “pocotizar” (Luciano Pires) nosso povo, para que o mesmo, longe da verdadeira interpretação dos fatos, não tenha elementos sólidos para montar uma cruzada cívica em busca de sua real independência. Com este padrão de mídia domesticada e distorcida, estamos condenados a permanecer colônia por mais 500 anos. Nas horas vagas, os gentis comandantes da informação promovem um suculento – Big Bobo Brasil – onde a galera ainda gasta seu suado dinheiro para telefonar e salvar um simpático “gênio” (aquele que forma uma frase com mais de 5 palavras) do paredão, quando na verdade deveria ligar para indicar dirigentes corruptos a serem eliminados da vida pública.

Haroldo P. Barboza – Vila Isabel – RJ – dez / 2005

Referendo de sucesso será o que permitir expurgo no Congresso!

Nós podemos fazer a diferença na verdade do futuro.

Haroldo P. Barboza

Autor do livro: Brinque e cresça feliz

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Resposta de Bonner sobre o artigo ao site Blue Bus.

‘Homer é 1 trabalhador e pai de familia’, responde Bonner.

No dia 23 de novembro, recebemos, no JN, a visita de professores universitários. Eles assistiram a uma reuniao matinal, em que se esboça uma previsao da ediçao daquele dia. E me ouviram fazer algumas consideraçoes sobre nosso trabalho. Em palestras que ministro a estudantes que nos visitam todas as semanas, faço o mesmo. Nestas ocasioes, sempre abordo, por exemplo, a necessidade de sermos rigorosamente claros no que escrevemos para o público. Brasileiros de todos os níveis sociais, dos mais diferentes graus de escolaridade. E o didatismo que buscamos para o público de menor escolaridade nao deve aborrecer os que estudaram mais. Neste desafio, como exemplo do que seria o público médio nessa gama imensa, às vezes cito o personagem Lineu, de A Grande Família. Às vezes, Homer, de Os Simpsons. Nos dois casos, refiro-me a pais de família, trabalhadores, protetores, conservadores, sem curso superior, que assistem à TV depois da jornada de trabalho. No fim do dia, cansados, querem se informar sobre os fatos mais relevantes do dia de maneira clara e objetiva. Este é o Homer de que falo”. Leia mais…

Fonte: Blue Bus

5 comments

  1. Olá Elaine!!!

    Nossa! Será que eu sou um Simpson também… rsrs… Tirando a minha piadinha sem graça de lado, o fato é trágico…. opiniões enlatadas, isso sim….. o povo adora…..

    bjs…

  2. Caramba Elaine!!

    Esse tal do pinguim já é muito velho e só eu não sabia… ainda assim, disponibilizei-o no meu template…. o pior que hoje minha filha, conversando no msn, chamou-me para ver o tal do pinguim que o colega dela postou na conversa… ninguém merece….. Ontem não consegui entrar no meu blog pois tava tudo fora do ar….. valeu…. bjs….

  3. Isso é a Globo. Detalhe o Homer Simpson foi eleito um dos dez grandes homens desta última década pela revista “Men’s Health”. Estão na lista o chef Jamie Oliver, o ciclista Lance Armstrong, o escritor Ian McEwan, Damon Albarn, vocalista do Blur, entre outros.”Estas pessoas usaram seus talentos para mudar o mundo mais do que chamar a atenção para si”, argumentou Morgan Rees, editor da revista.

    Para o jornalista, Homer é especial porque ensinou uma geração a lidar melhor com o desafio da paternidade e vencê-lo.(folha Online)

  4. Nada como ser um jornalista da nova geração, tem todas as “qualidades” do velho jornalismo global e o vocabulário da atualidade.
    O velho Roberto Marinho não era chique de chamar o povo de Homer, preferia o clássico de Disney, chamava abertamente o povo de “Pateta”.
    Ótimo post, como sempre escolhido a dedo.
    Bjs

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