Christiaan Oyens

Nestes tempos estranhos em que vivemos, onde se grava em computador, se “afinam” vozes artificialmente e se corrigem os tempos mambembes de bateristas deficitários, espero contribuir com um pouco de música isenta de artifícios. A música deve servir de suporte para a verdade. O Weissenborn é a voz que sintetiza os meus sentidos e canaliza a força do meu espírito. O nome do meu disco solo é “Adeus Paraíso”.

Nascido em Montevidéu, no Uruguai, dia 27 de Agosto, filho de pais holandeses e de avó russa. Com dois meses de idade, “voltou” para Buenos Aires (pois havia sido concebido na Argentina) onde morou com a família até a sua vinda ao Brasil.

Chegou ao Brasil de navio no dia 06 de dezembro de ´73. Christiaan tinha 9 anos. “Lembro-me do calor insuportável daquele dia e da felicidade de estar me mudando para uma cidade que tinha inúmeras praias” comenta o músico em seu site.

Christiaan conta que no navio em que viajaram, havia uma boate aonde seu pai o levava algumas noites, mesmo sendo proibida a presença de crianças. Havia música ao vivo e, na banda, um jovem que tocava bateria.

“Não me lembro de nenhum outro integrante do conjunto, pois fiquei vidrado nos movimentos e sons que o baterista tirava do instrumento. Dois anos depois, no dia do meu aniversário, ganhava a minha primeira batera: uma Bandolim de Ouro (loja do Rio) com peles de couro de vaca”

Aos 15 anos, tocou no “Rock Dreams”, a primeira casa de Hambúrgueres no Rio com três amigos no que seria a sua estréia profissional. Nesta noite, conheceu um ótimo guitarrista e com ele e mais um baixista inglês formaram uma banda que misturava new wave com MPB. Gravaram uma fita demo no estúdio do Ed Lincoln, na Glória. Seguiu seus estudos de bateria com dois americanos que moravam no Rio:

Dexter Dwight, da Orquestra do Teatro Municipal, e o impressionante Bob Wyatt, baterista que tinha tocado com a big band do Maynard Fergusson nos Estados Unidos. Em casa, para relaxar entre as estressantes horas de estudo na bateria (por causa do barulho ensurdecedor), tocava bastante violão. Sua grande influência neste instrumento foi o Robert Johnson, graças a uma fita k7 que um amigo o presenteou na escola.

Aos 19 anos, mudou-se para Los Angeles – Hollywood, onde estudou na Musician’s Institute.

“Queria me tornar um baterista de jazz e investia muitas horas nesta difícil empreitada. Porém, os dois professores que moldaram a minha personalidade artística foram encontrados fora da escola: o Moacir Santos (1926-2006), que me ensinou teoria musical, e o Murray Spivack, que me trilhou o caminho para a criatividade na bateria.”

Tocou na Califórnia com Airto Moreira e Flora Purim, Kênia, Danny Dougmore e com sua banda Brazilian Winds.

“Um dia, caminhando pelo bairro de Santa Mônica, entrei numa loja onde às vezes tinham shows de blues e ouvi boquiaberto uma performance do sensacional David Lindley. Ele tocava o saz turco, o bouzouki armênio, entre vários instrumentos, mas o que me pegou de jeito foram as músicas de violão de colo havaiano. Lindley se referia a este violão como Weissenborn”

Se para um músico norte-americano era natural dominar vários estilos e tocar com todo mundo, aqui no Brasil, essa flexibilidade era considerada tabu quando retornou em ’88.

Cresceu ouvindo Beatles, Led Zeppelin, Cream e Mutantes, mas dominava perfeitamente idiomas como o jazz e a salsa. Mesmo enfrentando enorme desconfiança e preconceito, transitou tranqüilo entre diversos estilos tocando com Cazuza, Lulu Santos, Ritchie, Adriana Calcanhoto, Nico Assumpção, Marina Lima e Márcio Montarroyos.

Um grande salto na sua carreira foi quando decidiu procurar um parceiro para trabalhar um outro lado do seu mundo musical.

Christiaan procurava alguém que colocasse letra em suas composições, melodias que eram resquícios sonoros das suas andanças pelos bares onde se ouvia folk acústico em Los Angeles. Lá, descobriu artistas incríveis como Leo Kottke, Michael Hedges e Ry Cooder. Após várias tentativas frustradas, decidiu confiar suas melodias a uma moça que conheceu na casa de uma amiga no Leblon. Ela era Carioca, mas chegara recentemente de Brasília. Seu nome: Zélia Cristina, hoje, Zélia Duncan.

“Desenvolvemos algumas canções meio desencontradas no início, mas uma era boa (aliás, a nossa primeira parceria) e virou canção título de seu disco de estréia: “Outra Luz”, lançado pela gravadora Eldorado.”

“Zélia e eu continuamos investindo na nossa parceria. Em ’94, ela foi contratada pela Warner. Neste disco (“Zélia Duncan”), sete das doze canções eram parcerias nossas. Nele, trabalhei também como arranjador. Sugeri à Zélia que fizéssemos uma versão de “Cathedral Song”, de Tanita Tikaram, e esta canção, aportuguesada “Catedral”, foi a música mais tocada em território nacional em ’95. A partir deste disco, investi na carreira de produtor. Produzi vários discos da Zélia, o Acústico MTV do Lulu Santos, Alvin L., Flávio Venturini e muitos outros.”

Em ’98, a Warner Brasil passou a Christiaan um orçamento para a produção do novo disco da Zélia, onde o músico e agora produtor observou que seria viável a mixagem no exterior, algo que estava querendo fazer há algum tempo.

“Na época, ouvia em casa assiduamente os discos do Ben Harper. Além do lindo trabalho que ele tem, percebi como a sonoridade era despoluída de efeitos como os ecos exagerados e reverbs tão usados na década de ’90. A Warner tinha me passado uma longa lista de engenheiros de mixagem no exterior, mas eu só tinha um nome: Eric Sarafin, engenheiro dos discos do Ben. Foi com ele que mixei o disco “Acesso” nos estúdios da A&M, em Los Angeles. “Acesso” foi corajoso, difícil e de sonoridade muito ousada para a época. Soube que várias pessoas usaram este disco depois como referência sonora para seus trabalhos (Ed Motta e Nando Reis entre eles).”

Os discos que ouvia do Ben Harper fez com que Christiaan reatasse com as suas influências blues, e foi quando decidiu que queria dedicar mais tempo ao violão slide. Ao ler o crédito dado ao violão Weissenborn nos discos do Ben, lembrou imediatamente do David Lindley e sabia que teria que investir nesses violões. Mas aqui no Brasil? Por onde começar?

“Ainda bem que a minha mãe tinha Internet nessa época! Fui para a casa dela e fiz uma busca sobre a história destes incríveis violões, detalhada, neste site, na página sobre os Knutsen/Weissenborns. Aproveitei a mixagem da Zélia na Califórnia para trazer dois Weiss. de volta comigo.”

Christiaan mergulhou no (sub)mundo dos Weissenborns. Comprou todos os livros a respeito. Estudou música havaiana. Tentou absorver a influência deste instrumento no blues, folk e adaptá-lo para a tradição da música brasileira. Entrou em contato com pesquisadores sobre este raro instrumento. Encomendou vídeos sobre as diferentes técnicas aplicadas ao lap steel, o slide de colo.

“Saí enriquecido desta investida. O lap steel oferece uma gama de técnicas para expressar o que reside dentro da nossa alma. O lamento do slide é um canal para acessar o imponderável; uma voz para apalpar o inconsciente.”

“Para mim, a possibilidade de lançar um disco solo como baterista era completamente nula. Sempre acreditei que a bateria é um instrumento de acompanhamento e nada mais. Nunca consegui ouvir um disco de um baterista solo até o final. São todos insuportáveis! Discos que recomendo para meus alunos como de “bateria” são John Coltrane, “A Love Supreme”, com Elvin Jones, ou Led Zeppelin, “IV”, com o Bonzo. Com a Zélia representando brilhantemente as nossas canções e acompanhando grandes artistas tocando bateria, não enxergava um disco solo num horizonte próximo. O Weissenborn chegou para mudar este cenário. Ao compor para este instrumento descobri que ele sintetizava todas as minhas vivências musicais. A barra do slide tem um elemento percussivo ausente nas técnicas tradicionais de violão; além disso, as notas invadindo o meu estúdio caseiro foram como amigos de infância que um dia tocam a campainha para fazer uma visita surpresa. O blues, jazz, folk, MPB, surf music; a minha facilidade com os ritmos e a minha capacidade de criar melodias, todos interagiram espontaneamente feito uma família reunida após longos anos de separação. A possibilidade de um vôo solo não era mais algo que eu só viabilizava para o “outro” com o meu input de produtor. Por acaso, e completamente sem querer, descobri um instrumento que me viabilizou um ponto de vista musical.” Palavras do professor Christiaan Oyens.

Vale a pena conhecer o trabalho de Christiaan Oyens acesse o site
http://www.christiaanoyens.com.br/disco.htm

ou o seu perfil no Myspace

Importante: Não deixem de ouvir Negrume

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